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A rua não tem partido. O partido não tem rua. Drummond, o poeta do mato dentro, na antevisão desse cenário, dizia: “Vivemos um tempo de partidos, de homens partidos”.

A rua não tem partido. O partido não tem rua. As multidões de 15 de março ali estavam sem vinculação partidária. Ainda que palavras de ordens gritassem contra a legenda que está no poder, o amalgama que surge do movimento das ruas é, em si, deslocado de partidos políticos.

No tecido orgânico estratificado da rua o consenso é o próprio dissenso contra a ordem política e partidária vigente. Nada de tutela do partido A ou B, nada de engajamento, tudo sem sistematização, uma ideia que brota num cartaz de protesto, tinta verde e amarela espontaneamente pinçada da aquarela da indignação.

Na rua há um sentimento uníssono: a melhora do país, esse paciente que esguicha sangue por todos os poros, nos CTIs de políticas públicas que nunca chegam na ponta onde está o cidadão. 

Esse gigante adormecido placidamente no vasto leito da corrupção, asfixiado pela carga tributária, agonizante nos braços de Morfeu, paralisado por cabeças redivivas de Hidras de Lerna representadas por ministérios que encastelam cargos em comissão intermináveis para abrigar no vasto seio de Abraão amigos do Planalto, camaradas do ontem, do hoje e do amanhã.

E a rua vai no cortejo cívico da ideia na cabeça e o cartaz na mão. Cada um carregando no peito seu grito e empunhando nas mãos sua bandeira. Mas ressurge desse sussurro de multidão algo tangível e comum, pergunta que não quer calar: se a presidente, os senadores, os deputados, os políticos de um modo geral são considerados res nullius, quem é o sujeito oculto da relação?

A rua avança, surpreendentemente pacífica, uma paz demolidora, que atinge mortalmente os estamentos do poder políticos. A mesma paz sublime celebrada no casal de namorados de mão dadas, na jovem de camisa verde e amarela na sua bicicleta, nas crianças do passeio domingueiro com os pais. Essa paz ao mesmo tempo sublime e demolidora que foi capaz de abalar as estruturas do Planalto Central.

A rua não tem partido. O partido não tem rua. O fosso abissal, a distância enorme, o abismo que separa a atual política da sociedade. Esse é o retrato revelado pelas ruas.

Ruas que explodiram silenciosamente, sem nenhum comando, sem coloração partidária, somente o verde amarelo azul e branco para acordar o gigante adormecido em berço esplêndido ao sol do novo mundo. Essa paz demolidora que mais surpreende. Essa falta de sistematização das ruas, sem apego a sindicato ou a qualquer organização, isso que mais surpreende e incomoda o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional.

Quem ali estava não o fez necessariamente para pronunciar o estrangeirismo da moda, de gritar o bordão para eventuais ocupantes do governo e dos parlamentos deixem seus cargos. Nem se confrontar ou se comparar com movimentos de rua adrede alugados. A rua quer pouco, quer compromisso cumprido de promessa eleitoral, quer mudança, quer governança, quer governo honesto e eficaz como o texto constitucional determina.

A rua quer essas coisas simples que começam a acontecer magicamente quando simplesmente aqueles eleitos comecem efetivamente a governar e a fazer leis e reformas. A rua não tem partido. O partido não tem rua.
 

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Advogado e cronista