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26/08/2017 - Atualizado em 27/08/2017 8h36

ARTIGO: POLÍCIA PARA QUEM PRECISA DE POLÍCIA

POLÍCIA PARA QUEM PRECISA DE POLÍCIA

Carlos Roberto Souza Silva, Delegado Regional em Manhuaçu

Christiano Xavier, Delegado Regional em Contagem

Nos anos 90 o grupo musical Paralamas do Sucesso lançou uma música e um vídeo clip chamado “Alagados”. Música com forte crítica social trazia em seu vídeo clip de divulgação o registro de uma comunidade pobre onde seus moradores trabalhavam duro dia a dia por seu sustento, mas  eram festivos mesmo frente a todas as dificuldades enfrentadas.

Após o sucesso da música e do vídeo clip um documentário foi gravado expondo a realidade dura da comunidade e a comparando a outras no Brasil. Mesmo sem esgoto, luz e água encanada regular, dificuldades em estudar as crianças e sem acesso à saúde  o maior problema relatado por aquelas pessoas trabalhadoras daquela favela - diga-se de passagem: trabalhadoras como a grande maioria dos brasileiros – foi a insegurança causada pela violência, pelo tráfico, pelas mortes violentas, pela cooptação de crianças, filhos de trabalhadores, por traficantes de drogas que as seduziam com falsas promessas de um futuro, futuro este que o Estado não as ofereciam, pois sequer escoladas tinham acesso.

No documentário inspirado no videoclipe “Alagados” uma personagem daquele Brasil real lá dos anos 90 ficou registrado em minha mente. Foi um policial que narrava, durante todo o documentário, a rotina de uma guerra contra um inimigo violento, sem escrúpulos, sem moral, sem ética ou ideologia. O crime e os criminosos  daquela comunidade não poupavam nem mesmo as crianças.

Demostrava o policial naquele filme, isso lá nos anos 90, desânimo e conformismo com a realidade violenta encontrada todos os dias em sua luta pela paz pública. Ao final do documentário - ao fundo se ouvia a música “Alagados” - o policial diz: “A grande maioria dessas pessoas são boas, sensíveis, educadas, trabalhadoras e honestas. Mas veja, aqui na favela não vem o Estado com educação, não vem com saúde ou com ruas calçadas; essa crianças brincam desças em córregos esgoto a céu aberto... aqui só vem o Estado com a polícia. Só a Polícia não resolve!”.

Poucas frases me marcaram tanto.

“Só a polícia não resolve”. “Só a polícia não resolve”. Essa frase deveria ser constitucionalizada em nossa Lei Maior.

Hoje, como naquela realidade retratada no videoclip musical de “Alagados”, a violência e a criminalidade são cotidianas, especialmente nas comunidades mais carentes. Comunidades estas cujos seus moradores são carentes de perspectiva de uma vida melhor no futuro que somente chegará com mais educação e melhoria crescente da qualidade de vida de todos. Mas o que presenciamos em regra são ações reativas ao crime e aos criminosos – aqui é a polícia sim quem atual –, porém sem investimentos na prevenção a médio e longo prazo mediante ações na área de educação, saúde, saneamento, melhoria na distribuição de renda; sem perspectiva de um futuro melhor, alguns jovens, serão sim aliciados mais facilmente pelos criminosos, pelos traficantes; entrarão para o crime e se tornarão “problema de polícia”.

Pobreza não sinônimo de crime. Conheço milhares de pessoas humildades que são exemplos de dignidade, trabalho, honradez. Essas pessoas trabalham e constroem suas Histórias robustamente. Mas se não houver investimento para reverter as causas da pobreza, haverá um número pequeno de jovens que seguirão o caminho do crime por acreditar ser esse o caminho único. E aí sim se tornarão “problema da polícia”.

Não temos um discurso de vitimização de criminoso. Aquele indivíduo que se volta para o crime deve sofre duramente as penas da lei. Não podemos flexibilizar em único centímetro nisso. Lugar de criminoso é na cadeia, condenado e cumprindo pena em penitenciárias e com possibilidade de ressocialização. Mas Só a Polícia não resolve.

A polícia faz seu trabalho. Mas se não começarmos a exigir políticas públicas contínuas e sérias para reduzir e mesmo acabar  com uma das principais causas da violência, a pobreza, nascerão novos criminosos; ocorrerão novos crimes; novas crianças se tornarão criminosas; a violência continuará em nossas portas e talvez entre em nossas casas.

Se os governos e nos como sociedade civil continuarmos pensando em acabar com a violência com polícia, talvez precisemos dizer mais incisivamente: a Polícia faz todos os dias seu trabalho e por vezes morrendos ao fazê-lo, mas “Só a Polícia não resolve”.

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