Fazia tempo que não ia a uma das minhas duas rodas de samba preferidas, que sempre acontece nas noites de sexta-feira em algum lugar da Grande Vitória. O outro samba de que gosto muito rola às segundas-feiras, e também já faz um tempinho que não apareço por lá.
Primeiro por conta de trabalho, de estudos, das coisas todas, enfim, que costumam gastar nosso tempo e tirar um pouco do ímpeto de sair à noite. Entre elas, é claro, a descontrolada violência urbana.
Mas, com relação à roda das sextas-feiras, um item a mais vinha me fazendo adiar o comparecimento: um silêncio ensurdecedor causado pela morte de amigo querido, justamente aquele músico que respondia, com sua mistura de sensibilidade, firmeza e leveza, pelo pulsar sincopado do samba.
Ao leitor e à leitora menos íntimos do samba, peço licença pra explicar que tradicionalmente a delícia do samba sempre esteve ligada à sincopa, que pode ser mais simplificadamente explicada como a nota que cai fora da “cabeça do tempo”, se ligando a outra, o que gera o suingue, diferentemente de outros gêneros em que a pulsação é “quadrada”, sempre “na cabeça”.
Pois, para possibilitar um ameno sincopar do samba, por parte dos outros instrumentistas, é fundamental a “respiração” do surdo, com seu timbre grave e profundo pulsando como um coração firme mas emocionado, destravado e sem ansiedade. A suposta falta da síncopa já levou inclusive o poeta Vinicius de Moraes a definir, possivelmente com uma boa dose de injustiça, o samba paulista como “uma locomotiva que perdeu os freios”.
Hoje, simplesmente todos os sambas-enredo do Brasil são locomotivas que perderam o freio. Por quê? Porque o samba acelerou demais o “beat”, e por isso a síncopa desapareceu, seu “tempo” foi atropelado, o samba virou algo mais apropriado pra se marchar do que pra se dançar (experimente pôr pra tocar um samba-enredo “muderno”, lembre-se dos tempos de desfile escolar, e logo você poderá, se quiser, sair marchando pela sala: 1-2-3-4, 1-2-3-4, 1-2-3-4…).
Lá se foram a ginga, a malemolência e o “veneno” que encantaram o mundo e que tanta gente, mundo afora, se esforçava para imitar – como fizeram os jazzistas americanos ao assimilar elementos da bossa-nova.
Pois bem, mas há alguns redutos de saudável resistência, trincheiras de luta contra a fast-vida, o fast-som, a fast-shit-music, se me perdoam a indelicadeza.
Então, sexta-feira passada retornei àquela “minha” boa roda de samba. Revi gente querida, ouvi melodias que me encantam, cantei durante umas boas três horas (na condição de platéia, é claro). Tudo como antes, menos duas coisas fundamentais, uma como causa e outra como conseqüência: primeiro, o surdo já não pulsa na mão segura do nosso querido e falecido amigo. Segundo, acelerou demais – lá se foi a síncopa.
Saí de lá com alguns sentimentos: primeiro de tudo, a saudade do amigo e de sua companheira, que também ainda na dá conta de freqüentar a roda onde por tantos anos, toda sexta, ele era o coração do samba, o dela e o nosso também; segundo, a alegria de rever tanta gente querida e de cantar tanta música boa, mas, em terceiro, fica a constatação de que já não somos (todos nós, me parece) tão resistentes assim, culturalmente, e de que em alguns momentos parecia que uma locomotiva sem freios cruzava a roda.
Estética dominante, neocolonialismo, pasteurização cultural, estandardização, de tudo isso somos vítimas, mas sempre seremos também um pouco responsáveis, porque estamos nos descuidando da pureza daquilo que amamos.
Foi bom retornar, bom mesmo. Quero ir mais vezes. Mas não consigo deixar de pedir socorro, mentalmente e nestas maltraçadas, ao mestre Paulinho da Viola:
“Tá legal/eu aceito o argumento/mas não me altere o samba tanto assim” (Argumento). Mesmo que essas alterações sejam, hoje, quase que uma exigência de mercado e caia tão bem no gosto das mais “novas” (?) gerações.
Longa vida à importante roda de samba do querido Mestre Juarez.
O jornalista, escritor, professor e compositor Tavares Dias nasceu em Tumiritinga (MG), no Vale do Rio Doce, em 13 de setembro de 1951. Passou pelos principais veículos de comunicação do Espírito Santo. Atuou também na extinta TV Manchete, no Rio de Janeiro. Em São Paulo , trabalhou na revista Istoé e nas editoras Globo e Best-Seller.
Publicou “Sinais de mim” (poesia, 1995), “Bairro São Pedro” (reportagem, 2001), “Boca de Beijo” (crônicas, 2000), “Uma janela no muro” (contos, 2005) e “No reino de Pedro Félix” (contos, 2007).
A coluna é publicada às quintas feiras no Portal Caparaó – 01/11/07 – 12:02