Mauro Bomfim

Ou a cabeça de Renan ou a impunidade

A quarta-feira, 12 de setembro, foi absolutória para o Senador Renan Calheiros, mas tragicômica para o país. O Plenário o absolveu. Mas o Conselho de Ética do Senado, em raro momento de afirmação da ética e da honradez no atual panorama da política brasileira, o condenou por 11 votos contra 4. Renan jogou suas cartas […]

A quarta-feira, 12 de setembro, foi absolutória para o Senador Renan Calheiros, mas tragicômica para o país. O Plenário o absolveu. Mas o Conselho de Ética do Senado, em raro momento de afirmação da ética e da honradez no atual panorama da política brasileira, o condenou por 11 votos contra 4.

Renan jogou suas cartas confiando nos subterrâneos das cavernas da pornô-política brasileira, em cujos labirintos se escondem minotauros dos cofres públicos. No voto secreto e na confiança daqueles que têm rabo preso e que não cultivaram o exemplo de Nabucodonosor, o rei da Babilônia que não roubava e nem deixava ninguém roubar seu reino.

Nos esgotos das vaidades humanas, e no day-after absolutório de Renan, Brasília pode ser considerada uma Ilha de Creta dos novos tempos. Dela já disse Fernando Gabeira, o deputado-jornalista do PV: “A noite de Brasília só tem P: político, prostituta e propina”.

Esperava-se que no julgamento do Plenário a sociedade reencontrasse seu fio de Ariadne, que pudesse livrá-la das garras dos minotauros devoradores da ética e engolidores de propinas às custas do  Tesouro. Mas , infelizmente, a impunidade política triunfou.

O grande trunfo em favor do mandato de Renan Calheiros foi o voto secreto, praga que, como os gafanhotos do Egito, ainda infesta o processo legislativo no Parlamento brasileiro. O fim do voto secreto em qualquer tipo de votação legislativa é imperativo da supremacia da ética, do princípio constitucional da moralidade , da transparência.

O voto nominal, ou seja, o voto aberto em que o senador ou deputado é obrigado a dizer alto e bom ao microfone, o coloca sob a vigilância cerrada dos olhos da sociedade, que às vezes não são olhos tão famintos assim quanto se trata de combate à impunidade. A imprensa está vigilante. Esse voto aberto sepultou o colégio eleitoral que elegeu Tancredo. Mandou  Collor para o olho da rua.

Agora, o ex-líder de Collor , o então deputado Renan Calheiros e também alagoano seria julgado pelo seu ex-comandante, se Collor não tivesse pedido uma estratégica licença, passando a vaga de senador para o primeiro suplente para não ter que se posicionar. Outros correm riscos de também sofrer processo de quebra da ética no senado e por isso,  no anonimato da cabine secreta de votação, escreveram o sim para absolver Renan. Imaginaram que algum dia serão julgados pelos mesmos colegas e o espírito de corpo realmente funcionou nos partidos da base aliada do governo.

Lula, que em determinado momento  ensaiou uma empedernida defesa de Renan, no momento da votação do Plenário estava em viagem ao exterior, passando o comando presidencial para o vice-presidente José Alencar, mineiro de raras e excelsas virtudes que é exemplo de reserva moral deste país. Lula preferiu deixar Renan ficar sozinho, perdido nos labirintos abissais das sombras do Hades, o inferno mitológico grego visitado pelo herói Ulysses na barca de Caronte, tudo para conquistar a preferência de Minerva e reencontrar, afinal, o amor disputado da belíssima Helena de Tróia.

Renan lutou bravamente nos labirintos e com a ajuda de pigmeus da política tupiniquim, acabou encontrando o fio invisível de Ariadne que , por enquanto, o livrou de seu inferno. Mas ainda pode ser julgado por outros crimes. Pode não permanecer com a coroa de presidente do Senado e nem mesmo sentado na cadeira de senador. Pode até mesmo não reconquistar o amor da jornalista Mônica Veloso. Nem ter as mesmas conquistas de Ulysses. Nem ter o amor de Helena de Tróia. Na votação do Plenário, sob o véu inconfessável dos interesses que deságuam no voto secreto, Renan se salvou. Mas ponderável parcela da sociedade brasileira, agora frustrada e indignada com sua absolvição, estava e continua torcendo para que Renan seja devorado por um novo minotauro, uma espécie de monstro do bem que deveria vigiar a ética no Congresso com a mesma fúria com a qual Cérbero, o cão mitológico de três cabeças, vigiava  as portas  do inferno.

 

Advogado e jornalista – maurobomfim@maurobomfim.com.br Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email

Escreve às quartas-feiras no Portal Caparaó – 13/09/07