A brincadeira de mostrar aos meus filhos pequenos uma velha carteira de identidade onde apareço na foto com um cabelão abaixo dos ombros me fez parar pra pensar em como era barra pesada bancar um cabelão daqueles, na época. E, rebobinando a fita da memória, fiquei brincando de lembrar de quantas coisas mais, além do cabelo grande, já foi babacamente chamada de coisa de veado.
Vocês não vão acreditar, mas a primeira peça de indumentária que vi ser indevidamente associada à imagem de homossexual foi, pasmem, o inocente chinelo de dedo, o mesmo que em algumas regiões do Brasil se chama bambolê, sandália japonesa ou lambreta. Não tinha jeito. Calçou, a sentença vinha em velocidade de cervídeo: coisa de veado.
Em seguida, se bem me lembro, vieram algumas outras duas coisas relativas a camisas: primeiro foi um piquezinho que se fazia nas mangas das camisas, uma espécie de “v” invertido. E também, na mesma época, era coisa de veado usar camisa de botões forrados, o que também já foi moda, ainda nos anos 60.
Sem contar umas aberturas que se usavam nas costas das camisas, e que as costureiras chamavam de “macho”. Já pensou, em plenos anos 70, você andar pela rua com um “macho” nas costas, pra desespero do seu pai?
Ainda tem muita coisa de camisa que foi chamada de coisa de veado, mas por enquanto vamos lembrar das calças. E célebre a história do delegado carioca Padilha, imortalizado em canção popular por Moreira da Silva. Pois o tal delegado gostava de jogar uma maçã por dentro da cintura da calça do “suspeito”. Se a fruta não chegasse sem problemas até lá no sapato e rolasse pelo chão, bem, aí, mano, fruta era você, tá ligado? Uma tesoura entrava em ação e você ficava na rua de bermuda, traje que, na época, também era tido com coisa de veado.
Mas também tinha o zíper, ou fecho ecler. Macho que era macho ia usar um negócio daqueles nas calças, rapaz? Tá maluco? Coisa de macho eram aqueles três botões que serviam para abrir e fechar a barguilha. E a cueca de malha, tipo “zorba”, que veio substituir a famosa samba-canção? Foi dureza de emplacar. Precisou de muita macheza.
Na área esportiva, tinha isso também. Vôlei, basquete e handebol eram esportes de veado. Macho que era macho jogava bola era com o pé, mano, tá louco?
E camisas coloridas, floridas, calças justas, ou com cintura saint-tropez, salto carrapeta, cordão grosso, pulseira, cinturão com fivelão, botinha com zíper, meia na cabeça. Ah, dessa você não sabia? Pois é, na década de 70, a gente vivia atrás de irmãs, amigas, namoradas, pedindo meia que tivesse corrido fio, pra então lavar e depois “rodar” o cabelão, de noite, na sexta-feira, mantê-lo naquela touca de meia o sábado inteiro, e então aparecer na casa da namorada com a cabeleira bem-transada, sedosa e limpa. Mas o hábito custou muito xingamento e muita ofensa. Me lembro de muita briga, em campo de pelada, por conta disso.
Depois, muito tempo depois, vieram os brincos. A vantagem é que tudo tem seu tempo e o preconceito vai, se não diminuindo, pelo menos se sutilizando. É claro que a galera que usa brinco sofreu muito, no começo, e é possível que alguém ainda sofra. Mas hoje, felizmente, é rabo de cavalo pra lá, xuxinha pra cá, arquinhos e faixas e bandanas, sem que a barra fique tão pesada para os jovens.
E pensar que no interior de Minas eu já vi polícia chegar num bar, fechar todas as portas, enfileirar os cabeludos e levá-los rua afora, expostos à execração pública, até a barbearia. O barbeiro era então forçado a meter a máquina na nuca, sair na testa, depois começar num lado da cabeça e sair do outro. A idéia era deixar os “veadinhos” assim, por um ou dois dias, com aquele ‘x” na cabeça, para que, só depois de devidamente ridicularizados e chamados de veados, pudessem finalmente se ver livre do trauma, do desrespeito e do constrangimento. Naquele dia, muito moleque tirado a valente se escondeu no alto de um morro e só voltou pra casa altas horas da noite, como forma de escapar do vexame.
Valia a pena encarar tudo isso. Não que soubéssemos, àquelas alturas, a dimensão do movimento de que estávamos participando, liderados principalmente pelos Beatles e pelo Stones. O que valia, mesmo, era que as gatinhas de então, hoje circunspectas senhoras – é bem verdade que algumas ainda bem ripongonas – gostavam muito de rapazes cabeludos, de calças justas e coloridas, de tudo que aqueles, bem, aqueles que é melhor a gente chamar apenas de recalcados senhores, pra não repetir o erro deles, detestavam e, hoje, percebo claramente, invejavam de sentir dor.
Mas não foi sempre fácil. Um dia, numa praça, eu tinha uns 18 anos quando um imbecil resolveu puxar meu cabelo e me chamar de gostosa. Coitado. Eu jogava futebol num clube profissional, treinava o dia todo, corria uma porrada de quilômetros e anda por cima gostava de artes marciais. A primeira porrada, instintiva, pegou na boca do cara. Os dentes da frente se espalharam pela caçada. O sujeito se transtornou. Protagonizamos uns bons 20 minutos de porradaria em plena rua, até que uma sirene de polícia nos fez desaparecer.
Liberdade, como se sabe, ninguém te dá de presente – nem você mesmo. Ou você a conquista ou pode esquecer. E é isso que, nestas divagações, estou tentando ensinar aos meus filhos.
O jornalista, escritor, professor e compositor Tavares Dias nasceu em Tumiritinga (MG), no Vale do Rio Doce, em 13 de setembro de 1951. Passou pelos principais veículos de comunicação do Espírito Santo. Atuou também na extinta TV Manchete, no Rio de Janeiro. Em São Paulo , trabalhou na revista Istoé e nas editoras Globo e Best-Seller.
Publicou “Sinais de mim” (poesia, 1995), “Bairro São Pedro” (reportagem, 2001), “Boca de Beijo” (crônicas, 2000), “Uma janela no muro” (contos, 2005) e “No reino de Pedro Félix” (contos).