Sopra de través, de repente, sem anúncio, um levanta-saia no meio da ladeira. É domingo de tarde.
Embandeiraram-se portas e portões, sem mais aquela. Lençóis, camisas de futebol, meias e toalhas acompanham a toada que conta uma história de se ouvir.
Passarinhos residentes no coqueiro da esquina se calam por instantes, respirando a fresca da lufada vespertina que traz um cheiro de chuva.
Lá, quando chove em dezembro, cada pingo é um balde.
É um corre-corre. Menino passa pra casa. Filha cobre os espelhos da casa.
Em cinco minutos uma nuvem escura cobre o sol e o corisco risca o céu.
O estalo vem na garupa. Cachorro grande cobre os ouvidos, o ganido é de filhote, procura o escurinho do debaixo da cama. Gato, na sua proverbial impassividade, continua seu banho seco por entre o bom das almofadas.
Latinhas de sardinha, de salsicha de pêssego em calda, e mesmo um balde, estão debaixo das pontas das telhas, de boca pra baixo, aguardando o aguaceiro. Logo vão tocar a música das goteiras, cada lata um timbre, o balde é o grave, gravão, contrabaixo.
O barquinho ganha a correnteza. Aderna daqui, aderna dali, navega de popa, raspa a quilha no baixo calado. Encontra prumo, se arrima. Brotou da mão de menino mestre nas marinharias fluviais.
O barquinho já foi caderno. Leva o casal apaixonado, abraçado, sentado num banquinho capricho puro.
Ela veio ao mundo abobrinha; ele, chuchu. O canivete de cabo cinza ajudou bem. Uma espiga de milho doou os cabelos e a palha que compõe o guarda-chuva que ele sustenta sobre as cabeças dos dois.
Na proa do barco, a boreste e a bombordo, com letra de primeira série, lápis de cor, o nome de batismo da embarcação: Vai com Deus Meu Bem.
“Todo abismo é navegável a barquinhos de papel”. (Guimarães Rosa)
O jornalista, escritor, professor e compositor Tavares Dias nasceu em Tumiritinga (MG), no Vale do Rio Doce, em 13 de setembro de 1951. Passou pelos principais veículos de comunicação do Espírito Santo. Atuou também na extinta TV Manchete, no Rio de Janeiro. Em São Paulo , trabalhou na revista Istoé e nas editoras Globo e Best-Seller.
Publicou “Sinais de mim” (poesia, 1995), “Bairro São Pedro” (reportagem, 2001), “Boca de Beijo” (crônicas, 2000), “Uma janela no muro” (contos, 2005) e “No reino de Pedro Félix” (contos).
05/12/07 – 08:10