REDAÇÃO – Em Manhuaçu, no leste de Minas Gerais, Rodrigo Garcia Pinho transformou o sonho de ter uma loja com quatro funcionários em um dos maiores grupos de material elétrico do interior do país. O crescimento veio do básico bem-feito: reunir, no mesmo balcão, as quatro entregas que o cliente esperava.
Em 2004, Rodrigo Garcia Pinho não era um empresário do material elétrico. Era um cliente sem opção. A trajetória dele é destaque na edição 115 da Revista Empreenda, de setembro.
Ele precisava comprar material na própria cidade e não conseguia resolver em um único lugar. Em uma loja, o telefone não era atendido. Em outra, o produto estava anunciado, mas não estava no estoque. Na terceira, o preço ficava bem acima do praticado em Belo Horizonte. Na quarta, havia material, mas não havia entrega. Não era falta de capacidade de ninguém. Era o desenho do varejo elétrico no interior naquele momento, quando cada um resolvia bem a parte que sabia resolver.
Reclamar do fornecedor é o que quase todo mundo faz. Rodrigo fez outra coisa. Fez uma lista.
“Eu vou montar uma loja que tenha tudo isso. Que tenha preço, tenha produto, tenha entrega, atenda o telefone.”
O plano original era pequeno, e isso importa. Rodrigo sonhava em ter uma loja enxuta, com quatro funcionários: um para entregar e cobrar, dois no atendimento e um no caixa. A Sema Material Elétrico nasceu em abril daquele ano, em Manhuaçu, e hoje é a maior operação do grupo em faturamento. O que fez aquele sonho crescer foi a capacidade de transformar em padrão aquilo que ele havia aprendido desde cedo: trabalhar com eficiência, atender bem e executar cada etapa com rigor.
ANTES DISSO, UMA BASE CONSTRUÍDA COM O PAI
Rodrigo entrou aos 15 anos na empresa de instalação elétrica do pai. Trabalhava às tardes e aos 17, já na faculdade em outra cidade, passou a cumprir expediente inteiro. Antes de lhe abrir as portas do negócio, o pai era uma referência profissional. Eficiente e reconhecido pelo trabalho bem-feito, era frequentemente transferido para assumir novos desafios e destravar o interesse de diferentes empresas.
Ao lado dele, Rodrigo aprendeu que competência se constrói na rotina: atender bem, cumprir o combinado e executar com precisão. Essa base foi decisiva para que, anos depois, conseguisse transformar um sonho pequeno em negócios grandiosos. Foi também ali que fez a observação que mudaria tudo.
Do outro lado dos orçamentos estava um profissional autônomo, competente, com um alicate, uma chave de fenda e uma bicicleta. Sem folha de pagamento, sem frota, sem encargo. A empresa da família tinha oito funcionários e custo fixo. O cliente, na hora de decidir, olhava para o número no fim da folha.
Rodrigo entendeu jovem o que costuma levar anos para ficar claro: há mercado que não se perde por falta de esforço, perde-se por geometria. Em vez de trabalhar mais e cortar margem, propôs mudar de campo. Em 2000, abriu com o pai uma empresa de construção de rede elétrica em média tensão, um segmento com exigência técnica, equipe qualificada e responsabilidade regulatória. Competir melhor é tática. Escolher onde competir é estratégia.
O Grupo Sema começou em 1988, com o pai e um tio de Rodrigo. A base criada pela família sustentou o crescimento que viria depois. Sob a gestão de Rodrigo, o grupo se tornou um sistema de quatro frentes que se alimentam mutuamente. Sema Eletrificações, Sema Material Elétrico, Sema Iluminação; Sema Imóveis e loteamentos.

As unidades ficam em cidades que polarizam suas regiões e cerca de cem quilômetros uma da outra: Manhuaçu, Caratinga, Governador Valadares, Ipatinga, Muriaé, Ponte Nova, João Monlevade e Iúna, no Espírito Santo. Somadas, alcançam um raio de trezentos a quatrocentos quilômetros e uma população estimada em cinco milhões de pessoas.
CRESCER COMPRANDO, LIDERAR FORMANDO
Rodrigo praticamente não abriu lojas novas. Comprou lojas que já existiam. Enquanto pensava em entrar na cidade vizinha, um representante comercial aparecia com a informação de que uma loja da região estava disposta a vender. Ponto montado, equipe contratada, estoque no lugar. Ele ia, negociava e comprava.
Estava comprando tempo, o único insumo que nenhum empresário consegue produzir. Do outro lado da mesa também havia ganho: eram operações em transição, e a venda foi uma saída ordenada, com o ponto preservado e a cidade continuando atendida. O que ele levava para dentro não era capital. Era método. Implantava o padrão da casa e a operação voltava a ser rentável no mesmo endereço.

A liderança seguiu a mesma lógica. São dois diretores e doze gerentes, e todos vieram de dentro. Ninguém no comando do Grupo Sema foi contratado pronto: entra na empresa ou no estoque, passa pela expedição, vai para vendas e sobe. Rodrigo também não tira gente de concorrente. Quando alguém aparece querendo trocar de empresa, ele manda conversar com o próprio patrão e cumprir aviso. Em uma região com escassez estrutural de mão de obra qualificada, essa escolha virou vantagem. Em vez de disputar os poucos profissionais prontos, ele formou os próprios. O agente formado dentro de casa carrega o padrão da casa, que é exatamente o que precisa ser replicado a cada nova loja.

A VIRADA QUE ELE NÃO PROCURAVA
Até poucos meses atrás, Rodrigo estava desacelerando. Sua rotina ia de dez para as sete da manhã às oito da noite e aposentar-se, na definição dele, significava chegar às oito e sair às seis. Havia avisado os corretores que não trouxessem mais oportunidades, porque um loteamento levaria anos para devolver o capital e ele já não queria esperar dez anos.
“Não tinha mais ambição nenhuma, pra falar a verdade.”
Então o telefone tocou numa terça-feira, às onze da noite. Amigos de São Paulo tinham um grupo de empresários fechado para acompanhar a Copa do Mundo nos Estados Unidos e uma vaga havia sido aberta de última hora. Rodrigo, que se define como avesso a esse universo, cancelou o próprio aniversário, o dia dos namorados e uma premiação que tinha para entregar. Da confirmação até estar em solo americano, menos de 48 horas.
Entre empresários de projeção nacional, como Joel Jota, Flávio Augusto, Caio Carneiro e Flávio Tavares, ele ouviu repetidamente a mesma observação: você já foi do ponto A ao ponto B, você tem história. Trinta anos de mercado, vinte e sete deles em material elétrico, uma das pouquíssimas redes próprias do setor no Brasil. Para Rodrigo, aquilo sempre tinha sido apenas o trabalho. Nos quarenta e cinco dias seguintes ao retorno, passou quinze em São Paulo, mais do que nos três anos anteriores somados.
Entre o jovem que aprendeu o ofício com o pai, sonhando com uma loja de quatro funcionários, e o empresário que hoje atende cinco milhões de pessoas em duas unidades da federação, não houve nenhuma ideia genial. Houve uma base profissional sólida e uma pergunta repetida por vinte anos: o que ainda não está resolvido aqui, e quanto custaria resolver por inteiro?
É uma pergunta simples.
E continua disponível.
Reportagem publicada na Revista Empreenda – edição 115