Tavares Dias

Os manacás estão floridos? (*)

Passou o mês de setembro. Outubro vai a galope. E só agora percebo que ainda não tinha falado nem escrito a respeito de um dos temais de que mais gosto: as manhãs de setembro. Faz poucos anos, também me lembro agora, que um caro amigo me chamou a atenção para a beleza das tardes de […]

Passou o mês de setembro. Outubro vai a galope. E só agora percebo que ainda não tinha falado nem escrito a respeito de um dos temais de que mais gosto: as manhãs de setembro.

Faz poucos anos, também me lembro agora, que um caro amigo me chamou a atenção para a beleza das tardes de maio. E hoje descubro também que este ano eu sequer prestei atenção a um único entardecer.

Desamanhecido e desentardecido, como pude vingar?

Hoje quero sair às ruas e descobrir, na falta de muitos, um único manacá florido. Quem sabe um escondido flamboyant, uma discreta acácia entre cabos telefônicos, de energia elétrica ou de tv.

Se pudesse, pegava hoje o trem da Vitória-Minas só pra ficar vigiando, pelos morros próximos do leito do Rio Doce, a locomotiva subindo e o Rio descendo, a beleza da roseira-do-mato, que é também buganvília e lustrosa, o colorido iluminando de vida, de alegria e de mistério o amarelo-palha do mato sedento de chuva.

Porque há que primaverar-se primeiro por dentro, cada um, para que se ressuscite a utopia fugida do planeta em agonia.

Em cada coração que sente e pulsa a delicadeza do momento, há que se plantar uma florzinha que seja, mesmo das pequenininhas: onze-horas, margarida, maria-sem-vergonha, miosótis. Beijo, então.

Flores da verdade, da pontualidade, da flexibilidade,

da constância, do respeito à palavra empenhada, da lealdade, do ouvir, do falar e do calar, da compaixão, do respeito, da solidariedade e do perdão.

Mas é preciso ir com calma. Coração é terreno muita vez precisando de correção, de se equilibrar a química do solo, esperar o tempo, cavar com dedicação. Deixar pingar umas gotas de suor no fundo da cova também ajuda.

Só depois de limpo o coração é possível que a flor possa cumprir seu sortilégio. Nada de mobília nova em casa depredada, dente novo em boca suja.

Possa florescer vida interior em cada ser. Que uma preciosa rosa viceje na alma da gente. Rosa rosa, mesmo, cor-de-rosa, não a vermelha, símbolo da paixão, que também tem seus encantos mas labora em curtíssimos enquantos.

Pois em diga lá, então, a cara leitora, e me diga lá, o caro leitor: um jardinzão desses assim, na alma da gente, quem não ia querer? Até eu que sou mais bobo quero.

Das minhas florações, nesta manhã em que batuco essas floragens no teclado, uma delas me é especialmente cara: quase um mês depois do que marca o calendário, hoje amanheceu primavera em meu coração.

Boa semana, gentes boas. 

(*) “Os manacás estão floridos” é o título de um livro do escritor capixaba Luiz Sérgio Quarto.

 

O jornalista, escritor, professor e compositor Tavares Dias nasceu em Tumiritinga (MG), no Vale do Rio Doce, em 13 de setembro de 1951. Passou pelos principais veículos de comunicação do Espírito Santo. Atuou também na extinta TV Manchete, no Rio de Janeiro. Em São Paulo , trabalhou na revista Istoé e nas editoras Globo e Best-Seller. Publicou “Sinais de mim” (poesia, 1995), “Bairro São Pedro” (reportagem, 2001), “Boca de Beijo” (crônicas, 2000), “Uma janela no muro” (contos, 2005) e “No reino de Pedro Félix” (contos, 2007). Pode ser lido também www.brazilianvoice.com (Newark, NJ, USA), www.seculodiario.com.br (Vitória), www.mineiros-uai.com.br  (Belo Horizonte) e www.portalcaparao.com.br (Manhuaçu, MG)

 

A coluna é publicada às quintas feiras no Portal Caparaó –  04/10/07 – 12:02