Jazia mais de meia hora que tinha sentado na beirada do canteiro da praça. Bem mais, até, parecia. A nádega já doía, das pontinhas do chapisco da mureta do canteiro.
É importante registrar que havia uma percepção da dor, senão, perguntaria o leitor, como é que o narrador podia já ir adiantando a notícia da dor, assim, feito o dono do mundo, se a personagem mesma não tivesse dado sinais dela?
Dolores das Chagas ruminava então dita dor.
Melhor dizer dita profunda dor, que é pra não se confundir com coisas de ditadura, quadro que só tem de comum com a situação de Dolores a dor comumente infligida aos que ficam à mercê do extremismo. Mesmo você que não viveu a ditadura militar pode saber perfeitamente o quanto dói no seu lombo e no seu pêlo, hoje, a ditadura de mercado destes tempos hipermodernos.
Pois resta então que com esse paragrafinho aí de cima o narrador já nos conduziu por uma voltinha de nada em torno da praça, em torno de si, em torno de Dolores, em torno da história recente da terra essa nossa aí, deixando a protagonista às voltas com espelhos cobertos feito em dia em que ameaçava relâmpago lá no interior.
Mas tudo tem um preço. Na volta dessa voltinha, já encontramos Dolores a se levantar, a esfregar a nádega dormente.
Fôssemos falantes de espanhol, status que já vivemos há séculos, e então se poderia fazer um sonoro jogo de palavras com o preço da dor, que seria então medida em dolares, assim mesmo, paroxítona, que é como se diz dólares em espanhol, propiciando jogos sonoros com dolores, um antigo sentimento dos latinos em relação ao efeitos da moeda estadunidense nestas tropicalientes bandas de cá do Rio Grande.
Nessa levada de reminiscências de caráter hispânico também ficaria fácil encaixar a frase atribuída ao ex-ditador mexicano Porfírio Díaz: “Pobre México. Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos”.
Pra dizer a verdade, a frase que incomodava Dolores das Chagas, naquela manhã solar e cristalina em que para ela o fora não espelhava o dentro, era outra, embora ligada a tudo que já foi dito acima por uma entretecida redezinha de pensamentos de um tipo que quando a gente está no meio só está no meio e só há mesmo o meio, principio e fim significando apenas instâncias e portos de ninguém se sentir solto no ar e só pelas metades do mundo, que as há.
E Dolores formatou finalmente a frase: “Democracia é eu mandar em você. Ditadura é você mandar em mim”.
Então, diante da lembrança da antiga frase, de novo o de fora se fez espelho do de dentro. E tudo era um, feito um gerúndio sadio que, tendo alimentado o espelho, logo também se nutriu de especulações. Mas o que importava mesmo, naquele dia, é que Dolores das Chagas pensou, pela primeira vez, em mudar seu nome pra Delícia Maria.
E deu-se que Ele, pois, ao chegar em casa assobiando distraidamente uma canção, a viu distraída, feito quem polisse um ontem com flanelas do futuro, como que ensaiando um sorriso que ainda não era muito dela, naquele instante, mas que ao fim e ao cabo seria do mundo.
Clareou num repente, o espaço. Correram. Cada um a janela própria. A tempo de verem uma ainda frágil alegria terminando de sobrevoar a vida.
Foi então que ressorriram, feito desde muito não se. Ainda não muito convictos, mas fortemente desconfiados de que quem vislumbrou pode vir a inteiro ver.
O jornalista, escritor, professor e compositor Tavares Dias nasceu em Tumiritinga (MG), no Vale do Rio Doce, em 13 de setembro de 1951. Passou pelos principais veículos de comunicação do Espírito Santo. Atuou também na extinta TV Manchete, no Rio de Janeiro. Em São Paulo , trabalhou na revista Istoé e nas editoras Globo e Best-Seller.
Publicou “Sinais de mim” (poesia, 1995), “Bairro São Pedro” (reportagem, 2001), “Boca de Beijo” (crônicas, 2000), “Uma janela no muro” (contos, 2005) e “No reino de Pedro Félix” (contos, 2007).