Tavares Dias

Lá vem chegando o verão

“Lá vem chegando o verão vindo da Estação da Luz É um pintor passageiro colorindo o mundo inteiro derramando seus azuis”  (Estação da Luz – Alceu Valença) A canção toca no rádio. Correm os trepidantes anos 80. A alienação, a macaquização e o reinado do hedonismo já avançam sobre nós faz anos, mas ainda achamos […]

“Lá vem chegando o verão

vindo da Estação da Luz

É um pintor passageiro

colorindo o mundo inteiro

derramando seus azuis”

 (Estação da Luz – Alceu Valença)

A canção toca no rádio. Correm os trepidantes anos 80. A alienação, a macaquização e o reinado do hedonismo já avançam sobre nós faz anos, mas ainda achamos que pode haver retorno. A Nova República, de Tancredo, Sarney, Itamar e quejandos, já aconteceu, desconstruindo o que restava da utopia. Não pode ficar pior.

Retumbante engano.

Lá vem chegando o verão. Jornais de Pindorama tentam se mostrar capazes superar o insuperável, a mediocridade de seus editores, com suas pautas cada vez mais babacas e superficiais. Assim como as igrejas da linha deus-é-surdo tomam de assalto os prédios dos antigos cinemas, feito pragas de gafanhotos, os cadernos de cultura dos jornais vão virando cadernos de “entretenimento”. Em rodinhas de jornalistas, nos bares da vida e da noite, a indignação, característica que tanto já honrou e diferenciou esses profissionais, é substituída pela superficialidade de uma geração formada majoritariamente por pessoas que chegam ao “poder” sem jamais ter lido um livro, sem qualquer poder de crítica. Você já está malhando? Já descolou seu point de verão? E as azarações, os “amores” (?) de verão? Ninguém fica nem vermelho. A gente se vê pela night, na balada. Quem se importa?

Lá vem chegando o verão, em meio aos efeitos devastadores do aquecimento global. Zé dos Cocos continua lavando o carro com a mangueira, lavando a calçada. A fabricação de um único carro de passeio consome 6 mil litros de água. A extração de 1 tonelada de minério de ferro gasta outros 100 mil litros. A cada vez que acumulamos produtos industriais, que colecionamos bugigangas (relógios, roupas, óculos, calçados, carros, felpudas toalhas de linho egípcio etc.), estamos detonando a chamada água virtual, aquela cujos gasto e custo vêm embutidos no produto industrial cuja existência no mercado só se justifica pela nossa superficialidade de babacas consumistas. Enquanto isso, milhões de pessoas ao redor do mundo já sofrem os efeitos da falta de água, esse bem essencial à vida, esse bem que é a vida. Quem se importa?

Lá vem chegando o verão. O estrondoso sucesso de bilheteria do filme “Tropa de Elite” veicula o discurso preferido da elite: é preciso matar, extirpar, ripar, quebrar, passar o cerol. A elite  brasileira, em seu afã de receber o “Oscar” da perversidade, que já faz por merecer há muito tempo, quer ser capaz de aniquilar criminosos com a mesma velocidade com que os fabrica a partir do Estado proxeneta e da perversa distribuição nacional de renda, hoje rivalizando com a da conhecida potência econômica africana que é Serra Leoa. E daí? Quem se importa?

Lá vem chegando o verão. O negócio é garantir a perpetuação da CPMF. Seu filho de cinco anos chega da pré-escola cantarolando os “versos” da “canção” que toca nos alto-falantes do caveirão que sobe o morro com a missão de sentar o dedo na galera do tráfico. Autoridades sinceramente envolvidas no combate ao crime organizado são sumariamente transferidas quando suas investigações rondam os poderosos que bancam o movimento. Quem se importa?

Lá vem chegando o verão. Dos presidiários brasileiros, dos deserdados brasileiros, das crianças brasileiras abandonadas, violentadas e prostituídas, das vítimas dos esquadrões de extermínio bancados pela elite que produz mostrengos como “Tropa de Elite”, a maioria absoluta é formada por negros. Somos um país com 44% de negros, a maior nação negra de todo o mundo, depois da Nigéria, mas fazemos de conta que somos todos branquinhos, olhinhos azuis, narizinho afilado. Vá chamar um riquinho ou uma riquinha de negro, pra você ver o tamanho da encrenca.  Quem se importa?

Lá vem chegando o verão. Filas e mais filas de pais e mães anestesiados passam horas na fila, nos shoppings, pra tirar fotos com Papai Noel, no país do desemprego, da violência desabrida, da lei que só existe para pobres e negros, no país dos políticos aqueles que você sabe. Quem se importa?

Lá vem chegando o verão. Neste 25 de dezembro, faz aniversário um certo Jesus.

Quem se importa? Você?

Brinca não, gente boa. Fala sério. Seu negócio é novela.

 

O jornalista, escritor, professor e compositor Tavares Dias nasceu em Tumiritinga (MG), no Vale do Rio Doce, em 13 de setembro de 1951. Passou pelos principais veículos de comunicação do Espírito Santo. Atuou também na extinta TV Manchete, no Rio de Janeiro. Em São Paulo , trabalhou na revista Istoé e nas editoras Globo e Best-Seller.

Publicou “Sinais de mim” (poesia, 1995), “Bairro São Pedro” (reportagem, 2001), “Boca de Beijo” (crônicas, 2000), “Uma janela no muro” (contos, 2005) e “No reino de Pedro Félix” (contos). Pode ser lido também www.brazilianvoice.com (Newark, NJ, USA), www.seculodiario.com.br (Vitória), www.mineiros-uai.com.br  (Belo Horizonte) e www.portalcaparao.com.br (Manhuaçu, MG)