Mauro Bomfim

Política escatológica

Ninguém precisou sujar as mãos. Renan saiu da cadeira de presidência do Senado. Mas preservou o mandato. Entregou os anéis. Ficou com os dedos. Espetáculo deprimente. A mando do governo Lula, a base aliada  salvou o mandato de Renan. Sob o véu indevassável do vergonhoso voto secreto. Com isso, ficou garantida a aprovação da CPMF, […]

Ninguém precisou sujar as mãos. Renan saiu da cadeira de presidência do Senado. Mas preservou o mandato. Entregou os anéis. Ficou com os dedos. Espetáculo deprimente. A mando do governo Lula, a base aliada  salvou o mandato de Renan. Sob o véu indevassável do vergonhoso voto secreto. Com isso, ficou garantida a aprovação da CPMF, imposto perverso, de efeito cascata. A não ser as assinaturas da FIESP, mais de um milhão, a voz das ruas é tímida contra a CPMF, Nada de cara-pintadas, nada de ocupar as galerias do Congresso. Estado de frouxidão moral? Amnésia coletiva da sociedade?

O toma-lá-dá-cá deste final de ano é uma filosofia franciscana às avessas. É dando que se recebe. Salva-se o mandato de Renan e a CPMF está salva. O comando de salvação do mandato de Renan partiu do próprio presidente Lula. Dele, do presidente da República,  já disse Heloisa Helena. A valente representante do PSOL, ex-petista: “ Até porque na minha modesta análise o pior deles é o Lula, tipo mel na boca e bílis no coração. Abraça sorrindo e esfaqueia pelas costas” . Ao lado de Renan, se posiciona a tropa de elite política mais suja do que pau de galinheiro, comandada por Romero Jucá no Senado e Jader Barbalho na Câmara, passando pela oligarquia Sarney.

Uma sujeira geral. Nem Hércules, o herói mitológico grego, que limpou as estrebarias do Rei Áugias,  obtendo êxito na conclusão de um seus doze trabalhos, poderia dar jeito no Senado. O excremento toma conta de tudo. Até do pensamento dos senadores, deixando o Senado como aquela gaiola de ouro que torra milhões dos cofres públicos e tem pouca utilidade. Vamos acabar com o sistema bicameral no Brasil? Tema para a reforma política, que, aliás, dormita a sono profundo nos braças de Morfeu, o deus do sono que parece comandar o Parlamento brasileiro,

A votação da CPMF está paralisada no Senado. Com isso há duas semanas, os deputados federais estão de pernas para o ar. Não se vota nada. Em três semanas, são mais de 4 milhões de reais torrados dos cofres públicos para manter a Câmara dos Deputados em funcionamento.

A ética foi jogada em meio ao esgoto humano que percorre o Senado. Misturou-se ao excremento lançado em suas paredes por 48 dos 81 senadores que absolveram Renan, mesmo depois de o alagoano  das vaquinhas de ouro ter sido condenado pelo Conselho de Ética e mesmo tendo renunciando à presidência do Senado num sinal eloqüente de que é réu confesso. Descaso com a coerência? Apologia da impunidade.

Lembrando as cenas bizarras da ex-deputada Ângela Guagnin quando da absolvição do mensaleiro mineiro João Magno e da comemoração de professor Luizinho, outro mensaleiro,  o Senador Renan Calheiros, ao ter a notícia de sua absolvição, em frente das câmeras da TV Senado,  proporcionou ao país um espetáculo deprimente.

Circulou sorrindo dando tapinha nas costas dos colegas, riu e debochou. O sorriso da impunidade. O deboche da ética.  O gesto que glorifica a barbárie  na política. A consagração da Lei de Murphy. A vantagem da Lei de Gerson escondida sob bolsos de paletós de grife que políticos corruptos compram com dinheiro oriundo de propinas e de todo tipo de rapinagem. Atitudes da escatológica política tupiniquim.

Mauro Bomfim – Advogado e Jornalista – 14/12/07