Jesus Cristo em seu belíssimo sermão da montanha assim expressou: “Felizes os que são misericordiosos, porque encontrarão misericórdia” (Mt 5,7).
Ao incluir este tema em seu discurso, Jesus quis valorizar as relações entre as pessoas e destacar que estas relações sejam pautadas de forma que a pessoa seja destacada acima de tudo. Na correria do dia-a-dia, na forma como a modernidade preconiza a vida, as pessoas são deixadas em segundo plano, as relações passam a ser mais profissionais, há um interesse no que o outro faz e não no que é; as pessoas passam a ser descartáveis e passamos a viver com medo e no isolamento.
O tema da misericórdia é sugestivo e nos faz pensar e ampliar a nossa forma de viver, pois desenvolver a prática da misericórdia faz bem num duplo sentido: enobrece a quem pratica e enaltece quem a recebe. Penso que agir com misericórdia é agir com o coração diante da miséria do outro.
Neste sentido, o coração não significa só sentimento; ele simboliza a entrega, a doação, a forma como vejo, sinto, penso a vida do outro que cruzou no meu caminho; pode ser o conhecido ou o estranho; o parente ou o meu desafeto; o empregado ou o patrão, o letrado ou o analfabeto; enfim, a misericórdia exercida pela pessoa e a capacidade de enxergar o outro como filho de Deus, como pessoa, como alguém necessitado de amor, carinho, ajuda material também, é a capacidade que tenho em disponibilizar ao outro o que ele está precisando naquele momento.
Hoje certamente a forma de definir miséria não é a mesma do passado; ela ainda existe na sua forma prática de ser, ou seja, pessoas que ainda ficam a margem da sociedade, carecem ainda de recursos materiais para ter uma melhor qualidade de vida; oportunidades para se ter saúde de qualidade, obtivemos muitas conquistas, mas ainda temos um longo caminho a percorrer para buscar uma maior igualdade entre as pessoas. Por mais que possamos evoluir e atingir um nível satisfatório de condição financeira, isto ainda não é tudo, existem pessoas que atingiram este patamar e são infelizes, frustradas, não se realizaram, não se encontraram consigo mesmas, são eternos sofredores. Há ainda os que debandam para o crime, para as drogas, para a vida fácil, abandonam a fé ou mesmo a praticam de forma infantil, não conseguindo fazer uma autêntica experiência de Deus.
Diante destas situações e de tantas outras que poderia elencar aqui, fica a santa provocação de Jesus para conosco: “ Felizes os que são misericordiosos”. O agir com misericórdia pode não salvar o outro, mas pode mostrar ao outro que é possível acolhê-lo em sua situação real, que sua vida pode também ser mudada. Assim tem muitos anônimos doando suas vidas em comunidades terapêuticas, ajudando pessoas a se libertar de vícios, restituindo a dignidade a quem não tem, a propiciar uma nova vida para quem já perdeu ou está perdendo a esperança, libertando pessoas, salvando famílias.
Associar a postura de misericórdia ao amor é entender, verdadeiramente, que o próximo mais próximo de nós talvez seja aquele que precise urgentemente de uma ação misericordiosa da minha parte. O amor verdadeiro supõe uma prática real. O final da parábola do bom samaritano é fantástica, quando o especialista em leis reconhece quem é verdadeiramente o próximo daquele que fora assaltado. Ele assim expressou: “ Aquele que praticou misericórdia para com ele”. (Lc. 10, 37).
Neste texto bíblico, Jesus resume tudo o que é a misericórdia, baseada no amor ao próximo, quando diz: “Vá e faça a mesma coisa”. Que Deus nos dê a graça de sermos misericordiosos sempre, com o desejo sincero de viver melhor.
Um santo domingo a todos e uma semana abençoada e misericordiosa!