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A agente de trânsito e o juiz

Luciana Tamburini é carioca, solteira, tem 34 anos, mora com os pais e uma irmã. Vive a agitada rotina do Rio de Janeiro . Luciana Tamburini é uma brasileira cheia de sonhos e ideais. Trabalha para ganhar o salário suado e estuda horas a fio na busca da aprovação em concurso público. Luciana Tamburini conseguiu […]

Luciana Tamburini é carioca, solteira, tem 34 anos, mora com os pais e uma irmã. Vive a agitada rotina do Rio de Janeiro .

Luciana Tamburini é uma brasileira cheia de sonhos e ideais. Trabalha para ganhar o salário suado e estuda horas a fio na busca da aprovação em concurso público.

Luciana Tamburini conseguiu aprovação no concurso da Polícia Federal. É uma brasileira, mulher guerreira, que rechaça privilégios e acredita na meritocracia.

Mas Luciana Tamburini hoje se diz enojada com o país. O sonho,  a conquista, a luta pelo ideal, de repente se desvanecem.

Luciana Tamburini virou ré em pleno cumprimento do dever. Agente de trânsito, parou um juiz de direito numa blitz no bairro chic do Leblon.

O fato aconteceu em fevereiro de 2011. Desde então Luciana vive pesadelos homéricos e dúvidas hamletianas. Será que ainda vale a pena acreditar no Brasil das carteiradas?

O juiz, no dia do fato, conduzia um Land Rover sem placas. O juiz não tinha carteira de habilitação.  A zelosa agente de trânsito cumpriu seu dever, e levou carteirada .

O juiz de direito sacou o clássico: “Você sabe com quem está falando?”. Infelizmente, e isso não vale só para juízes, ainda existe mentalidade colonialista dos que se arrogam em senhores feudais confundindo as pessoas  com vassalos, almas de escravos.

Alguém que por exercer  trabalho intelectual julgue   que o outro, com sua humilde tarefa, não teria também grandeza. Triste realidade chocante dos que ainda praticam a Lei de Gerson, a Lei de Murphy. Eu sou o bom e tudo posso.

Bastou uma singela frase, dita talvez com a bravura cívica do cumprimento do dever: “Mas o senhor não é Deus”, para que Luciana se transformasse em ré condenada a indenizar o juiz de direito em 5 mil reais, decisão recentemente confirmada pelo Tribunal de Justiça do Rio. No entanto , a  brasileira que barrou o juiz na blitz de trânsito caiu nas graças dos internautas. Até mesmo uma “vaquinha”  arrecadou  valor superior ao da  multa.

Mas como na célebre história do moleiro pressionado pelo Rei da Prússia para destruir seu moinho que atrapalhava a vista do castelo, Luciana acredita que ainda há juízes no Brasil. Mesmo com a vaquinha para pagar a indenização, vai recorrer para o Superior Tribunal de Justiça, que dará o veredito final sobre esse episódio da Lei Seca que virou notícia nacional.

Decidirá se  a agente  errou ao dar voz de prisão ao juiz ou se esse  agiu com abuso de autoridade.

Luciana Tamburini exerceu a função de agente de trânsito e agora passou no concurso da Polícia Federal. Luciana talvez não tenha o sorriso doce da Luciana da música de Nara Leão, mas certamente tem a valentia da mulher brasileira da música de Benito di Paula.

Luciana aguarda sua nomeação para Oiapoque, no extremo norte do país, no longínquo estado do Amapá, na fronteira com a Guiana. Ao invés de lidar com os poderosos do dia que teimam em descumprir a Lei Seca em seus carrões importados nas madrugadas do Rio, Luciana mobilizará toda sua bravura cívica de mulher brasileira na defesa de nossas fronteiras. certamente ajudando a combater  traficantes internacionais e o crime organizado.

Luciana é mais uma das milhares de trabalhadoras anônimas que cultivam a simplicidade  do cumprimento  de seu dever.

Luciana é, simplesmente, uma mulher brasileira. Mais uma vez  o Benito di Paula: “Agora chegou a vez, vou cantar, mulher brasileira em primeiro lugar”