Colunas

A explosão das ruas

Na Grécia Antiga havia uma praça pública que se chamava Ágora, onde Péricles começou a falar pela primeira vez em democracia. As ruas brasileiras de repente se transbordaram numa enorme Ágora dos tempos modernos. Dos bordões recolhidos dos manifestantes, que se transformaram até mesmo em policiais cívicos para conter os vândalos, recolhem-se frases e a […]

Na Grécia Antiga havia uma praça pública que se chamava Ágora, onde Péricles começou a falar pela primeira vez em democracia. As ruas brasileiras de repente se transbordaram numa enorme Ágora dos tempos modernos. Dos bordões recolhidos dos manifestantes, que se transformaram até mesmo em policiais cívicos para conter os vândalos, recolhem-se frases e a certeza inabalável de verdades que não querem calar: “Desculpe o transtorno, estamos mudando o país”. “O Gigante acordou.”. “Verás que o filho teu não foge à luta”. “Por 20 centavos e bilhões a mais”.

O grito libertário de indignação das ruas não se resumiu ao aumento de 20 centavos na passagem dos ônibus de São Paulo. Cada manifestante empunhou o gládio de sua indignação. Mais saúde de qualidade, mais educação, menos impostos, não à corrupção.

Jovens, idosos, mulheres e crianças, cada um trazendo no peito o grito incontido de indignação com a saúde de péssima qualidade, transporte público ruim, falta de segurança pública, carga tributária asfixiante. Um recado duro e claro aos governantes: não venham com o circo do futebol, com os bilhões gastos nos estádios. O país quer mais pão. O jovem rasgou a fantasia do anti-herói  Macunaíma e revogou a sentença tupiniquim de que tudo aqui termina em futebol, samba e carnaval. Que a nossa saúde e a nossa educação também tenham um padrão  FIFA de qualidade.

O movimento que galvanizou as ruas abomina políticos e partidos. Aqueles que tentaram usar o movimento para interesses politiqueiros foram escorraçados.  Emanado das ondas silenciosas do ciberespaço das redes sociais, a voz das multidões nas ruas resgata a democracia participativa sonhada pelo herói grego Péricles e desnuda a total falência da democracia representativa dos atuais senadores e deputados. Um Congresso distante e insensível aos clamores da nação votava um projeto de lei sobre a cura gay enquanto arrebentava todos os diques da história recente republicana.

A Paris de maio de  1968 assombrou o mundo com a Primavera de Praga, a greve geral que se transformou no grande abalo sísmico mundial, tendo à frente os estudantes. A Primavera Árabe de 2010 derrubou os governos totalitários de Ben Ali na Tunísia, Mubarak no Egito e os governos da Líbia, o Iêmen, Argélia e Marrocos. O movimento de liberação social eclode na Turquia. Vivemos, diríamos, o Outono Brasileiro. O pecado que existia na linha do Equador, como nos versos da canção de Ney Matogrosso era simplesmente a passividade de uma massa de carneiros. Mas toda passividade agora se desvanece aos ventos das bandeiras.

“Vem pra rua, vem, porque a  rua é a maior arquibancada do Brasil”.O apelo da canção de Falcão do Rappa em versos lúdicos  dá o tom ao comando de uma juventude neófita para o jogo sujo e rasteiro da política,  Mas uma juventude que na simplicidade do conteúdo material de 20 centavos do aumento de uma passagem de ônibus enche os olhos da pátria com um dos movimentos cívicos mais empolgantes desde as Diretas Já e do movimento dos cara-pintadas que derrubou Collor.

O Outono Brasileiro que explodiu em junho de 2013, tórrido em sentimento cívico, inspirou os jovens , tais como milhares de abelhas a buscar nas imundices dos charcos da política, flores para suas justas reivindicações. Em uníssono, gritam para os governantes com as forças de todos os pulmões: cessem de uma vez suas vocações de senhores feudais que não temos almas de vassalos.